REVISTA DE PSICOLOGIA -GEPU-
ISSN 2145-6569
IBSN 2145-6569-0-7

   
 
  “CERCA Y LEJOS”: ESTUDIO DE CASO CON FAMILIAS MILITARES DE LAS ISLAS Y DEL CONTINENTE DE PORTUGAL”


“CERCA Y LEJOS”: ESTUDIO DE CASO CON FAMILIAS MILITARES DE LAS ISLAS Y DEL CONTINENTE DE PORTUGAL”


“PERTO E LONGE”: ESTUDO DE CASO COM FAMÍLIAS MILITARES DAS ILHAS E DE PORTUGAL CONTINENTAL 
         
             
 
Catarina Francisco, Rita Francisco, Maria Teresa Ribeiro & Renato Pessoa dos Santos
  

 

Universidad de Lisboa / Portugal

 


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Catarina Francisco: é mestre em Psicologia (especialização em Psicologia Clínica Sistémica Familiar e comunitária) pela Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa, Portugal.
 
Rita Francisco: é licenciada e doutora em Psicologia (especialização em Psicologia da Família), pela Universidade de Lisboa. É Professora Auxiliar na Faculdade de Ciências Humanas da UCP e Diretora do CRC-W: Católica Research Centre for Psychological, Family and Social Wellbeing. Leciona no curso de licenciatura em Psicologia e em vários cursos de pós-graduação e mestrado.
 
Maria Teresa Ribeiro: é licenciada e doutora em Psicologia. Professora Associada da Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa. Desde 2008 é coordenadora do Programa Interuniversitário de Doutoramento de Coimbra-Lisboa em Psicologia Clínica, Psicologia da Família e Intervenção Familiar. Foi representante de Portugal no Comité de Peritos da Infância e da Família (CS-EF) do Conselho da Europa.
 
Renato Pessoa dos Santos: é mestre e doutor em Psicologia (especialização em Psicologia da Família) pela Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa, Portugal. Professor convidado do Departamento de Ciências Militares da Academia Militar Portuguesa. Responsável pela Secção de Apoio Psicopedagógico e pelo Centro de Estudos de Desenvolvimento de Liderança da Academia Militar. Correo electronico: santoskami@gmail.com 
 
 
Recibido: 19 de Mayo de 2020  
Aprobado: 30 de Diciembre de 2020 
 
Referencia Recomendada: Francisco, C., Francisco, R., Ribeiro, M. & Pessoa dos Santos, R. (2020). “Cerca y lejos”: estudio de caso con familias militares de las islas y del continente de portugal”. Revista de Psicología GEPU, 11 (2), 144-163.

Resumo: A duração e localização geográfica das fases de uma missão militar podem levar a diferentes impactos nos subsistemas familiares. Com o presente estudo exploratório e qualitativo pretende-se identificar e analisar as alterações sentidas pelas famílias insulares e Portugal Continental durante uma missão; e identificar os recursos para lidar com os desafios. A amostra é constituída por 12 participantes de quatro famílias nucleares militares portuguesas. Recorreu-se à entrevista semiestruturada, procedendo-se à análise através do processo abdutivo. Verificaram-se dificuldades das famílias insulares associadas à separação prolongada. Os principais recursos utilizados foram o suporte social e a comunicação com o militar. É importante desenvolver programas sobre resiliência que minimizem os riscos da separação familiar e potenciem as relações familiares e recursos da comunidade.

Palavras-chaveMissão, insularidade, família militar, parentalidade, conjugalidade.
 
Resumen: La duración y la ubicación geográfica de las fases de una misión militar pueden conducir a diferentes impactos en los subsistemas familiares. Este estudio exploratorio y cualitativo tiene como objetivo identificar y analizar los cambios que sintieron las familias de las islas y del continente de Portugal durante una misión militar; e identificar los recursos para enfrentar los desafíos. La muestra consta de 12 participantes de cuatro familias nucleares militares portuguesas. Se utilizaron entrevistas semiestructuradas y el análisis se realizó a través del proceso de abducción. Hubo dificultades para las familias de las islas asociadas con la separación prolongada. Los principales recursos utilizados fueran el apoyo social y la comunicación con los militares. Es importante desarrollar programas de resiliencia que minimicen los riesgos de separación familiar y mejoren las relaciones familiares y los recursos comunitarios.

Palabras clave: Misión, insularidad, familia militar, paternidad, conyugalidad.
 
Introdução

As famílias militares enfrentam separações longas e repetidas, deslocalizações frequentes, alterações de rotinas familiares, mudanças de papéis dentro da família e a ameaça real de perigo para o elemento militar (Alfano, Lau, Balderas, Bunnell, & Beidel, 2016). As frequentes ausências físicas, por participações em missões internacionais, contribuem para que as famílias militares estejam frequentemente em processos de reorganização e restruturação (Creech, Hadley, & Borsari, 2014). A separação produz vários fatores de stress, como a assunção do papel de “único-pai” para o cônjuge que fica e risco de desenvolvimento de problemas emocionais para todos os elementos do sistema familiar (Wood, Scarville, & Gravino, 1995). Especificamente, o stress associado à separação prolongada é resultante, entre outros, do aumento das responsabilidades por parte do cônjuge, das dificuldades de comunicação, assim como o facto do militar destacado estar em risco. O impacto do deslocamento no cônjuge do militar poderá influenciar a qualidade dos cuidados parentais, variável considerada muito importante para o desenvolvimento da criança (Simões, Farate, & Pocinho, 2011). As respostas das crianças face à missão são muito individualizadas e dependem da sua etapa de desenvolvimento, sendo comum apresentarem queixas somáticas e/ou problemas disciplinares (Pincus, House, Christenson, & Alder, 2001). Por outro lado, as experiências de deslocamento têm o potencial de promover a resiliência e crescimento individual de acordo com a forma como os recursos são mobilizados para a adaptação (Bóia, Marques, Francisco, Ribeiro, & Santos, 2018). Dadas as características geográficas de Portugal, constituído territorialmente por Portugal Continental e Insular, torna-se prioritário o estudo sobre as diferenças das vivências destas famílias, não existindo até à data qualquer estudo que faça a distinção entre as vivências das famílias militares das ilhas e de Portugal Continental.

Missões Internacionais: As Fases da Missão e o Ciclo do Deslocamento 

Geralmente, cada missão é organizada em a) pré-deslocamento, que se inicia com a notificação da nomeação até à partida do militar para o Teatro de Operações (TO); b) deslocamento, período em que o militar está destacado no TO (geralmente seis meses); e c) pós-deslocamento, que começa quando o militar regressa a casa (e.g., Bóia, et al., 2018; Van Breda, 1996). Após a notificação, cada família começa a antecipar a restruturação inevitável para a fase de ausência do militar (Riggs & Cusimano, 2014), e o militar tenta conciliar o tempo entre a unidade militar aprontadora e a família (Van Breda, 1996). Para o cônjuge, uma das preocupações foca-se no cuidar dos filhos durante a fase de deslocamento, ao mesmo tempo que gere as emoções dos filhos e as suas (DeVoe & Ross, 2012). No entanto, nesta fase, as maiores atenções estão associadas às questões financeiras, planos para os filhos e suporte emocional (Pincus et al., 2001; Van Breda, 1996). Os últimos dias antes desta fase caracterizam-se por uma sensação de distância emocional e física do cônjuge, materializado em sentimentos de ambivalência, raiva, desespero e desesperança (Bóia et al., 2018; Van Breda, 1996).

Sabendo-se que a partida do militar ocorre muitas vezes para TO perigosos e stressantes, as primeiras semanas do deslocamento são caracterizadas por uma sensação de desorientação e um misto de emoções (Pincus et al., 2001), pois advêm das preocupações com a segurança e bem-estar do militar e com as condições de vida perante a sua ausência (Martins, Santos, & Francisco, 2014), pois o cônjuge acarta grande parte das responsabilidades familiares, que antes eram partilhadas (Bóia et al., 2018; Santos, Francisco, & Ribeiro, 2018b). Neste contexto de reajustamento familiar, surgem também novos desafios parentais, como a gestão de suporte emocional dado aos filhos, supervisão e monitorização de comportamentos, estabelecimento de novas regras e rotinas, e gestão de papéis e responsabilidades parentais (DeVoe & Ross, 2012; Paley, Lester & Mogil, 2013). Neste período, e para alguns cônjuges, contactar com o militar pode ser uma experiência estabilizadora (Barbudo, Francisco, & Santos, 2014), pois preserva-se uma das principais fontes para o equilíbrio emocional (Pincus et al., 2001). Também, a maior parte dos cônjuges experienciam um fortalecimento na relação de casal, verificando-se mesmo um aumento da intimidade durante esta fase (Bóia et al., 2018), bem como um maior foco nas atividades extratrabalho. As semanas que antecedem o regresso são descritas pelas famílias como a fase em que se “contam os dias”, preparando tudo para a chegada do militar (Santos et al., 2018b). É um período de ansiedade e apreensão, uma vez que existem várias preocupações subjacentes ao regresso, mas por vezes não há tempo para processar as mesmas (Van Breda, 1996). 
 
Quando o militar regressa a casa inicia-se o pós-deslocamento e a sua duração varia em função das especificidades de cada sistema familiar (Pincus et al., 2001). Para a maioria das famílias, o regresso do militar é considerado um grande acontecimento (Baker et al.,1968), traduzindo-se num período de “lua-de-mel” familiar (Lester & Flake, 2013; Santos et al., 2018b). Contudo, ao longo desta fase destaca-se estados emocionalmente complexos e grandes desafios famíliares, uma vez que o sentimento de alegria e o bem-estar sentidos durante os primeiros momentos podem desaparecer, dando lugar à ambivalência de sentimentos, como o tormento, raiva e desilusão (DeVoe & Ross, 2012; Pincus et al., 2001). No entanto, vão sendo estabelecidas novas rotinas e as relações familiares vão-se tornando mais harmoniosas em que o sistema familiar reorganiza-se, reestruturando as suas dinâmicas e funcionamento (Van Breda, 1996). Contudo, o período da reintegração depende de cada sistema familiar e da capacidade de cada elemento desse sistema para se adaptar ao regresso do militar (Creech, Hadley & Borsari, 2014).

Famílias Militares Portuguesas
 
Como refere Segal e colaboradores (2015), a preparação para a missão requer que o militar passe por uma fase de treino (que pode acontecer longe da família), de formalidades (como a preparação de procurações) e decisões (tais como, onde a família vai viver durante o deslocamento, arranjos de casa e cuidados infantis). Enquanto a separação física dos militares de Portugal Continental em relação à família acontece durante o deslocamento, a separação dos militares insulares poderá acontecer no pré-deslocamento, uma vez que o aprontamento é em Portugal Continental, podendo desta forma considerar uma ausência desta mesma fase. Ou seja, a fase de deslocamento para estes militares é constituída por dois períodos. Também por vezes o pós-deslocamento é também “adiado” para os militares insulares pois têm que permanecer na unidade de aprontamento, aguardando a desmobilização da força que integraram. Assim, através do estudo de caso de duas famílias militares insulares e duas famílias militares de Portugal Continental, esta investigação tem como principais objetivos: (1) identificar e analisar as principais mudanças familiares sentidas pelo subsistema parental e filial, antes, durante e após o deslocamento do militar em missões internacionais; (2) compreender e analisar as diferenças familiares antes, durante e após o deslocamento para as famílias das ilhas e de Portugal Continental; (3) identificar recursos internos e externos que ajudam os subsistemas parental e filial dos militares, do continente e das ilhas, a lidar com os desafios associados à participação em missões internacionais.
 
Metodologia

Participantes

Participaram no estudo quatro famílias, duas de Portugal Continental e duas dos Açores. Cada família está representada por três elementos: militar, cônjuge e um filho primogénito. O número total de participantes é de 12, sendo que cinco são do sexo feminino e sete do sexo masculino. Os adultos (militares e cônjuges) têm idades compreendidas entre os 37 e os 48 anos (M = 42; DP = 4.30) e as crianças/jovens (filhos) têm entre 12 e 16 anos (M = 13.75; DP = 1.70). Acrescenta-se, ainda, que os casais destas famílias em estudo têm entre 2 (n = 3) e 3 (n = 1) filhos. Todos os participantes militares pertencem ao Exército Português. Os militares das ilhas têm entre 1 a 2 participações em missões internacionais (Afeganistão e Kosovo), e os militares de Portugal Continental têm entre 3 a 4 participações (Afeganistão, Angola, Bósnia, S. Tomé e Príncipe e Timor).

Procedimento

Foi utilizada uma amostra de conveniência, com base em três critérios de inclusão: participação do militar em, pelo menos, uma missão de paz internacional; estado civil casado/união de facto; ter pelo menos um filho. Após autorização do General Chefe Estado-Maior do Exército foram estabelecidos contactos com os comandantes de várias unidades do Exército para identificarem os militares voluntários que preenchessem estes critérios, através de um dos autores (Psicólogo do Exército Português), sendo selecionadas aleatoriamente quatro famílias que preenchessem os requisitos. As entrevistas foram realizadas aos militares, cônjuges e aos filhos primogénitos, no domicílio dos militares ou na unidade militar, após explicação dos objetivos do estudo e de assinatura do consentimento informado. As entrevistas tiveram uma duração média de 70 minutos e foram gravadas em formato áudio, mediante autorização prévia. Esta investigação recebeu parecer favorável da Comissão de Deontologia do estabelecimento de ensino superior dos autores do estudo. 
 
As entrevistas realizadas foram transcritas na sua globalidade e posteriormente analisadas através do processo de Análise Temática (Braun & Clarke, 2006) com recurso ao software QSR NVivo11. Este é um processo que se adequa a uma investigação de natureza exploratória e descritiva como esta, pois permite identificar, analisar e descrever padrões que, por sua vez, correspondem a temas, que dão significado ao conjunto dos dados e identificam ideias implícitas e explícitas. Uma vez identificados estes temas, prosseguiu-se para um processo de codificação, através do qual se organizaram as unidades de significado em categorias específicas sempre que se observava um dado padrão (Braun & Clarke, 2006). Neste sentido, foi possível a construção de uma árvore de categorias, constituída por categorias superiores, às quais estavam agregadas categorias inferiores. Assim, tendo como referencial a questão de investigação inicial, a codificação foi concretizada através de um processo abdutivo, que integra a razão e a criatividade na procura da melhor explicação para os fenómenos em estudo (Daly, 2007). Desta forma, foram analisadas as narrativas dos participantes sobre a experiência vivida, procedeu-se à comparação com a dos restantes e, indutivamente, descreveram-se as experiências comuns. Paralelamente, procurou-se comparar com outros fenómenos descritos na literatura como centrais para a temática em estudo, testando de forma dedutiva a relação entre os dados e a teoria.

Instrumentos

Guião de Entrevista Semiestruturada 

A entrevista semiestruturada foi o instrumento de recolha de dados privilegiado, por facilitar aos participantes que, norteados pelos objetivos gerais pré-definidos, expressassem livremente as suas respostas às questões e temáticas do fenómeno em estudo (Daly, 2007). Para todos os participantes, o guião da entrevista consistiu em três blocos temáticos: a) pré-deslocamento, b) deslocamento, e c) pós-deslocamento. No caso dos militares e cônjuges, foram explorados aspetos relativos ao sistema familiar em geral (e.g., “quais foram as principais dificuldades que sentiu?”), à parentalidade (e.g., "no deslocamento, sentiu necessidade de fazer alterações ao nível da imposição de regras ao seu filho?") e à conjugalidade (e.g., "no pós-deslocamento, que mudanças sentiu na comunicação com o seu cônjuge, em termos de intensidade, frequência e conteúdo?"). No caso dos filhos, procurou-se explorar temas semelhantes, como a adaptação à mudança, expressão de pensamentos e sentimentos, atividades em família e ocupação de tempos livres, mudança de responsabilidades e rotinas familiares (e.g., “como reagiste quando te deram a notícia?”). 
 
Questionário Sociodemográfico 

O questionário sociodemográfico teve como objetivo recolher dados complementares que permitissem uma contextualização do conteúdo das entrevistas e que fossem pertinentes para a interpretação dos resultados (e.g., número de filhos, número de missões).

Resultados e Discussão

A análise temática realizada às entrevistas resultou em 95 categorias interrelacionadas e organizadas num sistema hierárquico, que inclui 10 categorias principais: a) Fases da missão, b) Local de partida e regresso do militar; c) Evolução dos processos funcionais e relacionais, d) Preparativos para a missão; e) Respostas do/a(s) filho/a(s) face à missão; f) Gestão de responsabilidades; g) Relação pais-filho/a(s); h) Rotinas diárias; i) Fatores de stress; e j) Recursos. Como as várias categorias relacionam-se entre si, serão todas analisadas per si. As citações apresentadas ilustram o conteúdo codificado nas respetivas categorias, acompanhadas pelo código individual de cada participante progenitor (militar/cônjuge, continente/ilhas, número de filhos) e de cada filho (filho(a), continente/ilhas, idade), garantindo assim a confidencialidade dos dados.
 
Local de partida e regresso do militar 

DeVoe e Ross (2012) referem que o deslocamento corresponde ao período em que o militar está geograficamente separado da sua família. No caso dos militares das ilhas, esta separação inicia-se mais cedo, em que o pré-deslocamento se transforma em deslocamento.

Foram duas missões (…). Os meus pais estão no continente, mas a minha família neste momento é aqui. É onde está a minha esposa e os meus filhos, portanto acabam por ser dois deslocamentos. (…). A maioria saía do quartel e ia para casa ter com a família e nós não. (militar 2, ilhas, 2 filhos) 
Assim, no caso dos militares das ilhas, estes são afastados das suas famílias para realizarem o aprontamento em Portugal Continental, fazendo com que as separações se prolonguem por um tempo superior aos militares do Continente. Por outro lado, mesmo após o término da missão, ou seja, no pós-deslocamento, muitos militares das ilhas têm ainda de regressar ao local onde realizaram o aprontamento (em Portugal Continental) antes de regressarem ao seu local de residência, o que é considerado um fator de stress adicional para estes militares: “ainda estive em Viseu para aí três semanas, no pós-deslocamento. Foi horrível isso. Foi o que mais custou de tudo. Tão perto e tão longe. Estávamos completamente saturados, eu não tinha paciência para nada” (militar 1, ilhas, 2 filhos). SteelFisher e colaboradores (2008) apontam que o tempo extenso do deslocamento está fortemente associado com a insatisfação com o Exército. Mais, sugerem ainda que as extensões do deslocamento podem agravar os problemas e frustrações relacionadas com o deslocamento, como referem os nossos entrevistados insulares. 

Respostas do/a(s) filho/a(s) face à missão 

As respostas do/a(s) filho/a(s) face à missão (75 referências) identificadas como mais frequentes, independentemente da fase da missão a que se referem, foram: as respostas emocionais (50 referências), os resultados escolares (13 referências), a parentificação (nove referências), a somatização (cinco referências) e a regressão desenvolvimental (quatro referências). Uma análise mais detalhada permite associar algumas destas reações a períodos específicos, estando as três últimas respostas mais associadas ao deslocamento: “disseram-me que era o homem da casa. Que tinha de ajudar a minha mãe (…) agora que o meu pai ia para fora” (filho 2, ilhas, 12 anos); “sim, as notícias que a minha mãe sabia do meu pai contava só a mim… por ser mais velha” (filha 2, continente, 14 anos). Segundo Jurkovic (1998), esta parentificação, verificada nos nossos achados, pode ser emocional, quando a criança ajuda a figura parental a modular a sua afetividade, neste caso assumindo o papel de confidente direta de assuntos que a preocupam (Card et al., 2011), ou instrumental, quando a criança faz as compras, cozinha, limpa a casa ou ajuda a cuidar dos irmãos. 
 
Relativamente à somatização e regressão desenvolvimental, estes resultados apenas foram encontrados numa das famílias, do contexto residencial das ilhas: “ele com sete anos regrediu um bocado. Ele começou a fazer xixi nas cuecas na escola, andava nervoso. (…) E como ele regrediu, tive vários problemas com ele na escola” (cônjuge 1, ilhas, 2 filhos). Estes resultados são congruentes com a literatura sobre este tema, que refere que quanto mais tempo uma das figuras parentais está em missão, maior será o risco de os filhos terem problemas psicológicos, de saúde e comportamentais (Lester & Flake, 2013). Neste sentido, surgiu uma temática importante, como recurso externo utilizado por esta família em particular, a procura de apoio psicológico. A existência nas escolas de psicólogos pode ser um recurso importante para estes filhos, não só para aconselhamento, como para possíveis reencaminhamentos (Pinto, Francisco, & Santos, 2017): “(…) a única maneira foi com o psicólogo. Tive de ir com ele ao psicólogo da escola” (cônjuge 1, ilhas, 2 filhos). A separação de uma figura parental militar pode despoletar várias respostas emocionais nas crianças (Flake, Davis & Johnson, 2009), sendo que neste estudo, durante o pré-deslocamento, destacou-se a curiosidade: “era mais curiosidades, porque ele é curioso ‘O que é que vais fazer? Onde é que vais andar? Vais estar armado?’ ” (cônjuge 2, ilhas, 2 filhos). A curiosidade das crianças desencadeia nas figuras parentais uma outra preocupação, especificamente a preparação dos filhos para a missão: 
 
(…) falavam na escola que aquilo é uma região complicada, mas eu disse-lhes sempre que havia pessoas lá que precisavam de ajuda, que queria dar um contributo para que as crianças de lá pudessem ir à escola. É importante eles perceberem que quem vai para lá não vai numa missão unicamente para estar em conflito, é para resolver um conflito. Foi nesta abordagem que foi feito, mas sempre pelo lado positivo. (militar 1, continente, 2 filhos) 
 
Parece importante ressaltar neste estudo os resultados escolares que, na maioria dos relatos dos participantes, não sofreram alterações (à exceção de uma das famílias insulares, já referida anteriormente): “(…) os resultados escolares são excelentes! Graças a Deus! (…) elas são sempre uma referência para os outros meninos, quando o pai se vai embora” (cônjuge 2, continente, 3 filhos). Os resultados referidos parecem ter associação com a utilização de alguns recursos internos, como a experiência adquirida de outras missões. Realmente, neste estudo constatou-se que as crianças cujos pais já tinham tido experiências de outras missões, conseguiram ter bons resultados escolares e uma maior adaptação emocional do que na única família que nunca tinha passado por uma experiência semelhante. Assim, estes resultados vão ao encontro de outros estudos realizados com filhos de militares Portugueses, que referem que a habituação ou o facto de as crianças já terem experienciado várias participações dos pais em missões internacionais, faz com que se sintam acostumados a este tipo de situações (Pinto et al. 2017; Santos, Francisco e Ribeiro, 2018a). 
 
Relativamente à na subfase antecipação da partida, a maioria das referências está associada à afetividade: “(…) eu noto que eles, quando se está a aproximar a altura de o pai ir embora, acabam por ser mais carinhosos com o pai porque sabem que vão ter o pai ausente durante um período” (cônjuge 1, continente, 2 filhos), e à desvinculação e retirada estão associadas ao choro: “(…) no dia da partida, um dos meus filhos chorou imenso (cônjuge 2, ilhas, 2 filhos). De realçar que, apesar da antecipação da partida ser vista como uma fase ambivalente (Pincus et al., 2001), o nosso estudo revelou que as crianças acabam por ter reações de afeto com o pai militar, possivelmente como uma forma de demonstrar os seus sentimentos face à futura ausência física do mesmo. 
 
Durante o deslocamento, a resposta emocional das crianças que mais se destacou foi a saudade e a ansiedade na subfase do pré-reencontro: “ele sentia era falta do pai ali, no dia-a-dia, das brincadeiras deles” (cônjuge 1, ilhas, 2 filhos); “(…) mal podia esperar para ele chegar (…) estávamos ansiosos por vê-lo. Já não o víamos há muito tempo” (filho 1, continente, 13 anos). O período seguinte à partida também parece ser palco para algumas reações como a saudade (Lester & Flake, 2013). Mais, a ansiedade parece ser particularmente mencionada no contexto do pré-reencontro (DeVoe & Ross, 2002; Pincus et al., 2001), podendo ser desencadeada a partir das reações da mãe à mesma experiência. Tal resultado vai ao encontro de evidências anteriores de Lester e colaboradores (2010) que encontraram uma associação positiva entre os sintomas de ansiedade da figura parental não-militar e os sintomas de internalização e externalização nas crianças. 
 
No pós-deslocamento, a maioria das referências está associada mais uma vez à afetividade: “eu queria estar mais ao pé dele. Estar no sofá ao pé dele, e muitos abraços e muitos beijinhos” (filho 2, ilhas, 12 anos). Apesar de depender da idade da criança, esta reação vai ao encontro da literatura, pois as crianças em idade escolar tendem a querer muito a atenção do militar que esteve ausente (Pincus et al., 2001). 

Gestão de responsabilidades 

Considerando que as missões implicam a ausência física do militar, os processos de tomada de decisão quanto às responsabilidades parentais e a gestão das relações exigem que a família tenha de (re)negociar e coordenar responsabilidades e tarefas parentais ao longo da missão, procurando manter o equilíbrio e o bem-estar psicológico das crianças (Lester & Flake, 2013). Da análise do discurso dos participantes surgiram duas categorias principais, estando uma delas associada à forma como são geridas as responsabilidades individuais (23 referências do total de 38) e a outra associada à forma como são geridas as responsabilidades partilhadas (15 referências do total de 38). Estas surgem muito relacionadas à forma como o casal parental se preparou para a missão, no que se refere à gestão das responsabilidades, definindo o que cada um fará individualmente ou de forma partilhada. Desta forma, as responsabilidades individuais assumem maior expressão quando associadas ao deslocamento (18 referências do total de 23), enquanto as responsabilidades partilhadas acabam por assumir maior relevo na antecipação da partida (6 de 15 referências) e no pós-deslocamento (5 de 15 referências): “tudo aquilo que eu tinha como tarefas, passaram para a minha mulher” (militar 1, continente, 2 filhos); “ia juntamente com a minha mulher entregar os filhos à escola (militar 1, continente, 2 filhos); “a minha preocupação, quando cheguei, foi tirar carga da minha mulher, partilhando as tarefas com ela” (militar 1, continente, 2 filhos). 
 
No sentido da gestão das responsabilidades, como já referido acima, durante o deslocamento o cônjuge, neste caso a mãe, assume um papel preponderante nas rotinas diárias das crianças. De facto, das 33 referências às rotinas diárias neste estudo, a mãe está associada a 31 destas, referindo-se a maioria à manutenção das mesmas, indo ao encontro de algumas investigações (e.g., Werner & Shannon, 2013): “nós acabamos por fazer sempre as mesmas rotinas. Tentamos nunca mudar (…) mesmo para depois as crianças não sentirem que houve ali uma alteração (cônjuge 1, continente, 2 filhos). Contudo, outros relatos surgem relacionados com a ocupação de tempos livres, associadas às mães (9 referências), procurando assim atividades familiares distratoras durante este período, que funcionam como mecanismo de coping que lhes permitem estar juntos, desfrutar de momentos divertidos e reforçar a identidade familiar (Warner & Shannon, 2013): “íamos ao cinema e íamos os dois passear, muitas vezes à noite. Acabámos por passear mais. Era a melhor maneira de distrair” (cônjuge 1, ilhas, 2 filhos). 

Relação pais-filho/a(s) 

A família é um espaço de aprendizagem no âmbito das relações interpessoais (Alarcão, 2000), onde são estabelecidas relações de vinculação profundas, criando assim um sistema familiar único (Relvas, 1996). No caso pai militar destacado, a relação pai-filho pode ser afetada, por exemplo, quando o militar não consegue comunicar com os filhos, aumentando o risco da existência de uma vinculação insegura, levando à criação de barreiras para o sucesso da reintegração após regresso. Estes riscos são especialmente preocupantes para crianças mais pequenas, pois não conseguem comunicar de forma independente com o pai destacado (DeVoe & Ross, 2012). Da análise realizada surgiram quatro subcategorias principais: a) a figura parental (pai ou mãe; subcategoria criada especificamente para relacionar com as subcategorias seguintes, pelo que não é analisada individualmente), b) as características da relação, c) a omnipresença da figura parental militar, e d) a procura das figuras parentais. 
 
Características da relação
 
Atenção às necessidades dos filhos e Disponibilidade física e emocional. Estas duas dimensões da relação foram analisadas em conjunto, uma vez que ambas são caraterísticas importantes da responsividade parental, referindo-se à forma como os pais interagem com a criança e respondem atentamente às necessidades das mesmas (Warren & Nancy, 2007). Se a responsividade parental for positiva poderá levar a uma maior autorregulação e gestão que as crianças fazem de situações potencialmente stressantes (Bugental & Grusec, 2006), como é o caso da ida de uma figura parental para uma missão: “eu considero-me uma mãe atenta. Sempre! Esforço-me por isso, pelo menos tento (risos). Aí, nessas alturas, talvez seja um bocadinho mais e faço o que tenho que fazer para ajudar” (cônjuge 2, continente, 3 filhos). Das 10 referências da categoria atrás referida, seis correspondem à manutenção da relação na fase do deslocamento com a figura parental feminina: “acho que estava disponível, como sempre estive, para as crianças” (cônjuge 1, continente, 2 filhos). Da mesma forma, das 13 referências acerca da disponibilidade física e emocional, seis estão associadas à manutenção na fase do deslocamento com a figura parental feminina. Estas considerações levam a crer que a disponibilidade parental assume uma posição central entre os fatores que facilitam a adaptação à missão (Riggs & Riggs, 2011). Existindo apenas uma figura de vinculação fisicamente disponível, esta naturalmente assumirá um papel central ao nível da vinculação da criança (Cardoso & Veríssimo, 2013).

Resposta face às reações e comportamentos do/a(s) filho/a(s). Esta categoria corresponde ainda à responsividade parental, referida anteriormente. Face às reações e comportamentos do/a(s) filho/a(s), durante o deslocamento apenas a figura parental que fica, neste caso a mãe, obteve resultados. Considerando que estamos a falar de um conjunto de comportamentos parentais que surgem em resposta a determinadas reações e comportamentos dos filhos (Warren & Nancy, 2007), identificaram-se essencialmente a tolerância ou a exigência como forma de reação das mães perante os comportamentos e reações dos filhos: “só se as vir tristes. Aí sou capaz de ser mais tolerante em alguma situação. Porque compreendo que seja um bocadinho de tristeza” (cônjuge 2, continente, 3 filhos); “eu sou mais de falar com ele. Mas tive de o por de castigo. (…) Deixava de ver televisão ou de estar no computador, ou não ia brincar lá para fora” (cônjuge 1, ilhas, 2 filhos). E possível compreender como o aumento da tolerância está sobretudo associado às respostas emocionais das crianças, como por exemplo a tristeza, enquanto o aumento da exigência está associado a comportamentos desadequados das crianças, comportamentos indo ao encontro da literatura existente (e.g., Paley et al., 2013). 

Dependência da relação. Das três referências dos participantes nesta categoria, todas estão associadas ao aumento durante o deslocamento, com a figura parental que fica, a mãe: “acabam por ficar mais dependentes da mãe porque é só da mãe que têm ali o apoio” (cônjuge 1, continente, 2 filhos). 
 
Proximidade e força da relação. Das 11 referências, nove estão associadas ao aumento da relação durante a fase do deslocamento com a mãe: “íamos ao cinema e íamos os dois passear, muitas vezes à noite. Acabámos por passear mais.” (cônjuge 1, ilhas, 2 filhos). Apenas uma referência se foca na figura parental destacada, associada também ao aumento, mas no pós-deslocamento: “o pai voltou e está ali…vai levá-los à escola, dá-lhes aqueles miminhos. Compensa um bocado o período em que esteve ausente” (cônjuge 1, continente, 2 filhos). É ainda referida a diminuição, na fase do deslocamento, da proximidade e força da relação com o pai: “muito pouco. Como o tempo que ele também tinha para falar ao telefone não era muito. Falava um bocadinho com o miúdo, mas quase nada. Afastaram-se um pouco” (cônjuge 1, ilhas, 2 filhos). A fase do deslocamento pode levar ao afastamento dos vários elementos da família, mas por outro lado pode contribuir para o fortalecimento de laços familiares (DeCarvalho & Whealin, 2012). Os nossos resultados são concordantes com ambos os pressupostos, no sentido em que os participantes relatam um aumento da proximidade e da força da relação, mesmo os militares, que apesar da ausência física tentaram colmatar esse obstáculo. No entanto, também se verifica o afastamento da figura parental militar. 

Expressão do afeto, através do uso de expressões emocionais, como por exemplo abraçar, beijar e verbalizar o quanto se ama a criança. Das nove referências, sete estão associadas ao aumento da expressão do afeto da parte da figura parental masculina, quer na antecipação da partida quer no pós-deslocamento: “claro que um indivíduo está preocupado com o que poderá decorrer com a missão e a necessidade de estar um pouco mais próximo, se calhar estar com um olhar diferente, sim” (militar 1, continente, 2 filhos); “eu acho que houve um apego quando cheguei. Até do cão [risos], mas principalmente com a minha filha” (militar 1, continente, 2 filhos). 
 
Movimentos de compensação. Das sete referências, seis estão associadas ao aumento dos movimentos de compensação da mãe como uma forma de lidar com a ausência do militar, durante o deslocamento: “porque acho que elas merecem e cabe-me a mim compensar essa ausência. Tenho que ser capaz de o fazer, então esforço-me para elas, apesar do pai não estar, estou cá eu e estou a dobrar” (cônjuge 2, continente, 3 filhos); “a gente saía muito, o miúdo gostava muito de sair. Então saíamos. Comprei-lhe um cão pequenino para lhe fazer companhia, na altura. Assim pelo menos não estava tão sozinho” (cônjuge 1, ilhas, 2 filhos). Apenas uma referência está associada à figura parental masculina, no pós-deslocamento, com o aumento dos movimentos de compensação, devido à sua ausência: “o pai voltou e está ali. Agora vai levá-los à escola, dá-lhes aqueles miminhos. Compensa um bocado o período em que esteve ausente” (cônjuge 1, continente, 2 filhos). 
 
Gestão de questões e preocupações associados à missão. Cinco das oito referências desta categoria estão associadas ao aumento desta gestão, durante a antecipação da missão, da figura parental masculina. 
 
Nós explicamos sempre como é que aquilo é. Nesta última missão, como foi uma missão no âmbito das Nações Unidas, mostrámos como é que as crianças lá vivem. Acho que se tiram aprendizagens disso. Portanto acho que nesse aspeto eles acabam por perceber sempre porque é que o pai foi e o que é que ele foi lá fazer. Também é importante! Explicar e eles também saberem. (Cônjuge 1, Continente, 2 filhos) 

Perda de eventos importantes. Walsh e colaboradores (2014) concluíram que um dos principais desafios da participação numa missão internacional parece ser a perda de eventos e acontecimentos familiares importantes, durante o deslocamento, havendo um foco na perda do desenvolvimento e crescimento dos filhos. Os resultados do nosso estudo são concordantes com estas conclusões, uma vez que os participantes consideraram que uma das principais consequências negativas do deslocamento está associada à perda de transições importantes que os militares, por estarem ausentes fisicamente, acabam por perder: “(…) fui mãe duas vezes sozinha, não é fácil. Foram duas gravidezes diferentes, mas sempre sem ele. Ele não está nos primeiros meses, que também é sempre importante” (cônjuge 2, continente, 3 filhos); “(…) o meu pai não assistiu ao nascimento da minha irmã. Eu assisti, peguei na minha irmã ao colo. No dia do meu aniversário também não estava” (filho 1, ilhas, 16 anos). 

Envolvimento do Pai. O envolvimento parental, especificamente na relação pai-filho, é um constructo multidimensional que abarca diferentes formas de envolvimento alternativas à presença e interação física (Palkovitz, 1997). Dadas as especificidades das famílias militares, não se exclui a possibilidade de manutenção do envolvimento na vida familiar (e especificamente no quotidiano dos filhos), mesmo perante uma separação física, tal como os nossos participantes referiram: “eu também levava sempre a conversa para as atividades deles, como é que estava a correr o andebol, (…) como é que estava a escola. Quais eram as dificuldades que eles estavam a sentir (…)” (militar 1, continente, 2 filhos).; “falávamos com ele diariamente, sempre que possível… às vezes mais que uma vez por dia. Aliás, o pai participa imenso na vida familiar (…). Chegamos a estar os cinco. O pai com câmara e nós aqui, tipo Big Brother [risos]” (cônjuge 2, continente, 3 filhos). A manutenção do envolvimento da figura parental militar nas relações, dinâmicas e rotinas familiares, só é possível através dos meios de comunicação, que por sua vez oferecem a possibilidade de ver e ouvir o outro em tempo real (Barbudo et al., 2014; Martins et al., 2014). Desta forma, os meios de comunicação foram referidos como sendo de extrema importância, uma vez que permitem o contacto entre o militar e os restantes elementos da família, promovendo a manutenção das relações entre eles (Barbudo et al., 2014; Rea, Behnke, Huff, & Allen, 2015). 

Omnipresença da figura parental militar 

A omnipresença da figura parental militar foi outra das categorias que emergiu dos relatos dos participantes, e que se relaciona diretamente com as categorias anteriormente referidas (envolvimento do pai e meios de comunicação). A omnipresença é entendida como a presença psicológica e emocional, mesmo durante o período de ausência física (Bóia et al., 2018): “nós jantávamos os quatro à mesa, só que com o pai era com o portátil em cima da mesa (risos). Portanto acabava por estar sempre presente nas conversas e ao jantar normalmente estava sempre presente” (cônjuge 1, continente, 2 filhos); “falava com ele todos os dias, portanto era quase a mesma coisa. O que falava com ele quando chegava a casa era o que falava com ele todos os dias pelo Skype” (filho 1, continente, 13 anos). Os participantes referiram que a ausência do militar é apenas física porque continua envolvido em vários aspetos da vida familiar, sendo apenas possível devido às tecnologias de informação e comunicação (Greene et al., 2010), surgindo todas as referências à omnipresença da figura parental militar (10 referências) também associadas aos meios de comunicação.

Procura das figuras parentais 

Os relatos dos participantes permitiram também explorar a forma como as próprias crianças gerem a procura das figuras parentais, mais concretamente se esta procura se manteve ou alterou, em função das fases do deslocamento. Os dados revelaram que as crianças recorrem a ambas as figuras parentais mesmo na fase do deslocamento, estando três das quatro referências associadas ao deslocamento e apenas uma à desvinculação e retirada: “sabem que o pai está lá [na missão], mas também está com elas. Se precisarem, pegam no telefone e falam com o pai e choram porque a irmã tirou o brinquedo. Ligam logo para o pai e fazem queixinhas” (cônjuge 2, continente, 3 filhos). 
 
De acordo com a perspetiva ecológica do desenvolvimento humano (Bronfenbrenner, 1977), a consideração do contexto no qual as relações pais-filhos vão sendo desenvolvidas e consolidadas é imperativa. Ainda assim, para além da procura das figuras parentais, as crianças também puderam contar com o apoio de outros elementos (e.g., família alargada, amigos ou vizinhos), assim como os restantes elementos da família. Neste sentido, a família alargada e os amigos assumem uma posição de destaque enquanto principais figuras de suporte (Barbudo et al., 2014; Riggs & Cusimano, 2014) e a referência à sua presença é frequente no discurso das famílias: “talvez a minha avó. Normalmente ajudava nos almoços. Vinha passar a noite, quando a minha mãe não podia nos ir buscar” (filho 1, continente, 13 anos); (…) tive uma senhora, que é a avó de uma amiga da minha filha, que me ajudou também bastante (…). Foi uma grande ajuda, nesse aspeto foi uma grande ajuda” (cônjuge 1, continente, 2 filhos). Mais, a família surge como principal fonte de suporte funcional durante o deslocamento, o que vai ao encontro da visão destas figuras como cuidadores adicionais, que apoiam tanto os cônjuges, como as crianças com tarefas e rotinas diárias (Paley et al., 2013): “a minha mãe entregava as crianças na escola de manhã (…) essa ajuda de manhã era fundamental! Se não fosse ela, elas não iam à escola” (cônjuge 2, continente, 3 filhos).

Fatores de stress 

As famílias militares sofrem com as exigências face ao trabalho e à família, uma vez que são confrontadas com eventos e experiências geradoras de stress (Andres, 2010). No presente estudo surgiram essencialmente fatores de stress relacionados com a missão (41,5%) e fatores de stress exteriores à missão (58,5%). No que se refere aos fatores relacionados com a missão, os participantes referiram sobretudo aspetos particulares da missão, como o risco associado ao local da missão (15 referências) e segredos da missão (duas referências), que contribuiriam para o aumento dos níveis de ansiedade e preocupação: “era muito mau para onde ele ia (Afeganistão). As outras eram mais calmas, esta era mais violenta” (filha 2, continente, 14 anos). 
 
A perceção de perigo do TO, colocando em risco a segurança do militar, parece ser o fator que maior impacto tem na adaptação familiar. Em concordância com os nossos resultados, Werner e Shannon (2013) concluíram que as mortes anteriores nos TO eram uma das principais razões para haver uma preocupação acrescida com a segurança e bem-estar do militar. Também o estudo de Santos et al., (2018a) salienta que os filhos dos militares portugueses destacados em TO que não são caracterizados pela paz e estabilidade de guerra, como o Afeganistão, sentem uma maior preocupação com a vida do cuidador militar. Outros fatores também apontados pelos participantes como contribuindo para o aumento dos níveis de stress são os exteriores à missão, nomeadamente o processo de gravidez (15 referências – duas famílias), construção de uma casa (12 referências – duas famílias) e internamento no hospital (8 referências – uma família): “foi muito complicado para mim, porque na altura estávamos a iniciar a casa e eu fiquei com a obra toda a meu cargo, mais os miúdos” (cônjuge 2, ilhas, 2 filhos); “uma pessoa está em casa sozinha, grávida… fazer as ecografias. Sem ele ao lado, é muito mais complicado. (…) chegou um mês e tal depois da miúda nascer. Não apanhou o nascimento, que foi pior… para mais fiz cesariana” (cônjuge 1, ilhas, 2 filhos). Neste contexto, o processo de gravidez parece ser uma das preocupações principais, no sentido em que as separações repetidas e prolongadas associadas ao deslocamento implicam, muitas vezes, a ausência do militar em momentos e fases importantes. A perda do período de gestação e do parto dos filhos é exemplo disso, contribuindo inevitavelmente para exacerbar os níveis de stress não só da grávida, como do militar e das crianças (Bóia et al., 2018). 

Conclusões

Através deste estudo de caso de quatro famílias militares pretendeu-se compreender as principais mudanças familiares e as diferenças entre as famílias militares Insulares e de Portugal Continental, ao nível dos subsistemas parental e filial, bem como identificar os recursos internos e externos que as ajudam a lidar com os desafios associados à participação em missões militares internacionais. Se uma separação familiar se deve ao destacamento do familiar militar para um TO de guerra, as preocupações intensificadas porque envolve o risco do militar ser ferido, ou até mesmo morto (Andres & Coulthard, 2015), levando a várias alterações, nomeadamente nas respostas dos filhos (Riggs & Cusimano, 2014; SteelFisher et al., 2008). Assim, no pré-deslocamento, na preparação dos filhos é fundamental que haja uma comunicação aberta e clara sobre o facto de o militar ter sido nomeado para uma missão, criando condições para a sua compreensão e, consequentemente, fortalecendo a relação pais-filhos (Riggs & Cusimano, 2014). Apesar dos militares insulares estarem separados fisicamente das famílias durante esta fase, a notificação e preparação não diferiu muito das famílias de Portugal Continental, apenas no espaço temporal. Apenas numa família insular, o filho pareceu não demonstrar tanta afetividade na antecipação da partida, primando pelo evitamento. No deslocamento, o aumento das responsabilidades do cônjuge é uma das principais dificuldades (DeVoe & Ross, 2012; Pincus et al., 2001; Walsh et al., 2014; Werner & Shannon, 2013). De forma a lidar com o stress associado, a maioria das famílias evidencia como mecanismo de coping as atividades de tempos livres, contribuindo para o fortalecimento da relação mãe-filhos. No entanto, não parecem existir alterações significativas ao nível do envolvimento do militar na vida familiar, psicológica e emocionalmente, sobretudo devido à utilização de diversas tecnologias de informação e comunicação. Relativamente às diferenças entre contextos residenciais, parece não haver diferenças relevantes no que refere às respostas do/a(s) filho/a(s) durante este esta fase, já que todas as crianças demonstraram sentir saudades da figura parental destacada. A maior diferença surge quando, ao analisar as experiências anteriores dos militares noutras missões, apenas uma família insular não tinha tido nenhuma experiência prévia, levando a maiores dificuldades comportamentais da criança, nomeadamente a regressão desenvolvimental e somatização. Os fatores de stress exteriores à missão (e.g., internamento hospitalar, gravidez e a construção de uma nova casa) podem ter levado a uma maior dificuldade na gestão de emoções e comportamentos dos elementos familiares, face à ausência do militar. No pós-deslocamento, para além da prolongada separação aquando da chegada dos militares insulares, por terem ainda de permanecer na unidade militar de aprontamento (Portugal Continental), gerando frustração e ansiedade nos militares e respetivas famílias, parece não haver diferenças a assinalar. Para todas as famílias participantes, após regresso do militar, há um aumento da realização de atividades familiares e da procura do militar por parte dos filhos, facilitando a reintegração do mesmo. 
 
Algumas limitações do presente estudo dificultam a generalização dos resultados. Em primeiro lugar, a amostra é reduzida (duas famílias de cada contexto residencial), pelo que será importante, inquirir mais famílias de ambos os contextos em futuros estudos. Por outro lado, os filhos participantes foram apenas os primogénitos, não tendo sido explorada a perspetiva dos restantes filhos. Por último, o facto de serem apenas militares do Exército Português pode limitar a generalização dos resultados obtidos aos outros ramos das Forças Armadas. Apesar das limitações, os resultados deste estudo têm implicações muito relevantes para a investigação futura com famílias militares portuguesas, sendo inovador e pertinente sobretudo pelo facto de comparar, pela primeira vez, as perspetivas dos vários elementos das famílias militares (insulares e do continente). Os resultados que respeitam à extensão da separação nas famílias insulares, nomeadamente nas respostas das crianças, sugerem a necessidade de estudos futuros que permitam o aprofundamento desta especificidade, investigando as estratégias mais eficazes para mitigar a reação de frustração dos militares e familiares face a esta separação prolongada. Sugerem-se ainda estudos longitudinais que permitam compreender como o funcionamento conjugal influencia a parentalidade e a coparentalidade, através de mecanismos de spillover (relação mãe-filhos, pai-filhos e mãe-pai-filhos), bem como explorar as diferenças de género e as respostas das crianças ao longo das várias etapas de desenvolvimento (Creech et al., 2014). 
 
Quanto às implicações práticas desta investigação, destacam-se algumas pistas importantes para a prevenção/intervenção com estas famílias. Dois temas evidenciam-se, a separação prolongada no caso dos militares das ilhas, sendo essencial um maior apoio prestado pelos técnicos ao militar insular e família; e a parentalidade, nomeadamente, na gestão de regras e responsabilidades familiares, gestão de comportamentos parentais e coparentais, envolvimento positivo nas relações pais-filhos, por exemplo. Assim, é importante criar e desenvolver programas de promoção da resiliência que minimizem os riscos associados à participação em missões internacionais potencializando as relações familiares e os recursos da comunidade.

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