REVISTA DE PSICOLOGIA -GEPU-
ISSN 2145-6569
IBSN 2145-6569-0-7

   
 
  Pares Sócio-Normativos e Condutas Desviantes: Testagem de um Modelo Teórico em Diferentes Contextos Sócio-Educacionais Brasileiros
 
Pares Sócio-Normativos e Condutas Desviantes: Testagem de um Modelo Teórico em Diferentes Contextos Sócio-Educacionais Brasileiros

Social-Normative Pairs and Desviate Conducts: Testing of a Theoretical Model in Different Socio-Educational Contexts Brazilian

NILTON S. FORMIGA (1)
 
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Doutor em psicologia social pela universidade Federal da Paraíba; atualmente é professor no curso de psicologia da Faculdade Mauricio de Nassau JP. Endereço para correspondência: Rua Juiz Ovídio Gouveia, 349. Pedro Gondim. CEP.: 58031-030. João Pessoa - PB. E-mail: nsformiga@yahoo.com     

   

Recibido: 29 de Septiembre de 2010
Aprobado: 14 de Febrero de 2011

Referencia Recomendada: Formiga, N. S. (2011). Pares sócio-normativos e conductas desviantes: testagem de um modelo teórico em diferentes contextos sócio-educacionais brasileiros. Revista de Psicología GEPU, 2 (1), 79 - 93.    
 

Resumo: Inúmeras explicações sobre a manifestação das condutas desviantes em jovens, porém, ainda acredita que as instituições de controle tem sido destaque como fator de proteção para o desvio juvenil. O presente estudo tem como objetivo avaliar a influência das pessoas que compõem as instituições de controle como a família e a escola, aqui atribuídos como pares sócio-normativos – pais e professor - sobre as condutas desviantes em jovens de diferentes contextos sociais. Três amostras de jovens, homens e mulheres, da escola publica e particular de diferentes cidades responderam o questionário da afiliação com pares sócio-normativos e das condutas desviantes. No programa AMOS GRAFICS 7.0, gerou-se o teste do modelo hipotetizado; seus resultados indicaram a associação negativa dos pares sócio-normativos com as condutas desviantes, comprovando o poder da família – na figura do pai e da mãe - e da escola – na figura do professor – como fator de inibição das condutas permeadoras da delinqüência.

Palavras Chave: Modelagem Estrutural, Pares Sócio-Normativos, Condutas Anti-Sociais e Delitivas, Jovens.


Abstract: There are innumerable explanations about behavioral conducts manifestation among teens however it still believes that the control institutions have been highlight as a protection factor for youth diversion. The present study has as a main to evaluate people influence that comprise the institutions of control like family and school – here attributed like social-normative pairs – parents and teacher – about teens’ behavioral conducts from different social contexts. Three teens, men and women´s samples from a public school and a private one and in different cities have answered the affiliation questionnaire with social-normative pairs and behavioral conducts. Inside the program   AMOS GRAFICS 7.0, engendered the hypothetical model test and its result has indicated a negative association of the social-normative pairs with the behavioral conducts which confirm the family power like the father and the mother´s figure – and the school power – like the teacher´s figure – like an inhibition factor of the delinquency in between conducts. 

Palabras Claves: Structural Modeling, Social-Normative Pairs, Antisocial and Criminal Behavior, Youth.



Introdução

As explicações sobre os comportamentos desviantes entre os jovens contribuem para se refletir na permanência e renovação de intervenções psicossociais e de políticas publicas que possam inibir esse fenômeno tão grave na sociedade contemporânea entre os jovens (Stoff, Breiling & Maser, 1997). Apesar da existência de variáveis psicológicas e sociais apontarem soluções, ainda é importante compreender o poder das instituições – especialmente, a família e a escola – na ação inibidora dos comportamentos de risco.

Atualmente, as condutas de risco são bastante evidentes, estas podem se apresentar como conduta desviante, as quais se categorizariam em conduta anti-social refere-se a não conscientização das normas que devem ser respeitadas – desde a norma de limpeza das ruas ao respeito com os colegas no que se refere a certas brincadeiras – e não praticadas por alguns jovens. Neste sentido, este tido de conduta caracteriza-se pelo fato de incomodarem, mas sem causar necessariamente danos físicos a outras pessoas; elas dizem respeito apenas às travessuras dos jovens ou simplesmente à busca de romper com algumas leis sociais (Formiga & Gouveia, 2003).

Quanto à conduta delitiva concebem-na como merecedoras de punição jurídica, capazes de causar danos graves, morais e/ou físicos. Portanto, tais condutas podem ser consideradas mais severas que as anteriores, representando uma ameaça eminente à ordem social vigente. O que essas condutas têm em comum é que ambas interferem nos direitos e deveres das pessoas, ameaçando o seu bem-estar, bem como, diferenciando-as em função da gravidade das conseqüências oriundas (Formiga & Gouveia, 2003; Espinosa, 2000; Molina & Gómez, 1997). Possivelmente, todo jovem pratica ou já praticou algum tipo de conduta anti-social, o que faz parte do repertório deles, salientando como um desafio dos padrões tradicionais da sociedade, pondo em evidência as normas da geração dos seus pais.

Apesar do debate existente em relação à fissura social e psíquica quanto às instituições – por exemplo, família e escola - e o papel dos pais e professores como responsáveis pelo comportamento dos jovens; pais e professores ainda são vistos como referência ao apoio na promoção de comportamentos socialmente desejáveis das pessoas que a compõem estas instituições, seja em sua perspectiva estrutural ou funcional (Brenner & Fox, 1998; Bolsoni-Silva & Marturano, 2002; Formiga, 2005). Esse fato se deve porque nessas instituições todos (pais e professores) são co-participantes na construção psicossocial de atitudes, personalidade, motivação, valores, etc. dos jovens na sociedade contemporânea.

O foco nas instituições de controle sócio-normativo – isto é, a família e a escola – e sua dinâmica, refere-se à formação e socialização valorativa que o jovem e adulto incluso e ativo nestas instituições pode transmitir nas suas relações interpessoais uma condição psicossocial do valor das outras pessoas e suas condutas frente a elas, inibindo as condutas de risco (Formiga, 2005; Villar, Luengo, Gómez & Romero, 2003). Ao considerar o papel das instituições e sua dinâmica formadora, faz-se referência a afiliação, não a instituição como um todo, mas aos pares que compõem cada uma delas - respectivamente, pais – pai e/ou mãe - e professor; eles são considerados como os pares responsáveis e atuantes diretamente pelo estabelecimento e manutenção das condutas normativas dos jovens na sociedade, podendo ser considerados como influentes na inibição de motivação de atitudes de riscos, consecutivamente, do desvio social.

Com base nessas reflexões, no estudo correlacional de Formiga e Fachini (2003), Formiga (2005) e Formiga (2009) – estudos estes que são base crítica para o presente estudo – seus resultados apontaram, significativamente, para uma relação positiva entre a afiliação com os pais e professores, e destes, negativamente, com as condutas desviantes. Apesar da consistência nos resultados do estudo desses autores, é preciso destacar que no tipo de análise aplicada por tais autores, existe um inconveniente em que se pauta estritamente nos dados obtidos não considerando um modelo teórico fixo (no caso do presente estudo, teoricamente, hipotetisa-se que afiliação com os pares-sócio normativos entre os jovens explique negativamente a conduta desviante) que oriente a extração de indicadores estatísticos entre as variáveis independentes (afiliação sócio-normativo) e dependentes (conduta desviante) apresentando qualquer indicação sobre a bondade de ajuste do respectivo modelo teórico.

Um estudo nessa direção empírica, a qual tem sido comum na área das ciências humanas e social, especificamente, na Psicologia (MacCallum & Austin, 2000; Pitali & Laros, 2007); partindo dos pressupostos teóricos, busca-se contribuir, a partir da análise e modelagem de equação estrutural no programa AMOS 7.0, em direção de uma comprovação teórica da hipótese a que se pretende avaliar – a título de lembrança, o poder explicativo da afiliação sócio-normativo sobre as condutas desviantes - garantindo uma robustez explicativa entre as variáveis, bem como, apontar em direção da dinâmica multivariada entre elas.

Especificamente, a técnica da análise da Modelagem de Equação Estrutural (MEE) tem a clara vantagem de levar em conta a teoria para definir os itens pertencentes a cada fator, bem como, apresentar indicadores de bondade de ajuste que permitam decidir objetivamente sobre a validade de construto da medida analisada e sua direção associativa entre as inúmeras variáveis. Desta forma, dois resultados principais podem ser esperados ao trabalhar com essa análise: 1- estimativa da magnitude dos efeitos estabelecida entre variáveis, as quais estão condicionadas ao fato de o modelo especificado (isto é, o diagrama) estar correto, e 2 - testar se o modelo é consistente com os dados observados, a partir dos indicadores estatísticos, podendo dizer que resultado, modelo e dados são plausíveis, embora não se possa afirmar que este é correto (Farias & Santos, 2000). Atende-se assim, não a certeza total do modelo, mas, a sua probabilidade sistemática na relação entre as variáveis.

Um dos principais objetivos das técnicas multivariadas – neste caso, considera-se a modelagem de equação estrutural - é expandir a habilidade exploratória do pesquisador e a eficiência estatística e teórica no momento em que se quer provar a hipótese levantada no estudo. Apesar das técnicas estatísticas tradicionais compartilharem de limitações, nas quais, é possível examinar somente uma relação entre as variáveis, é de suma importância para o pesquisador o fato de ter relações simultâneas; afinal, em alguns modelos existem variáveis que são independentes em algumas relações e, dependentes em outras. A fim de suprir esta necessidade, a Modelagem de Equação Estrutural examina uma série de relações de dependência simultâneas, esse método é particularmente útil quando uma variável dependente se torna independente em relações subseqüentes de dependência (Silva, 2006; Hair, Anderson, Tatham & Black, 2005; Hoe, 2008).

De acordo com Farias e Santos (2000), Hair, Anderson, Tatham e Black (2005) e Zamora e Lemus (2008) ao considerar a modelagem estrutural do modelo – isto é, a análise de caminhos (path analysis) - relaciona-se as medidas de cada variável conceitual como confiáveis, acreditando que não existe erro de medida (mensuração) ou de especificação (operacionalização) das variáveis; cada medida é vista como exata manifestação da variável teórica. Assim considerado, desenha-se o modelo teórico que se pretende tomando a partir elaboração hipotética entre as variáveis independente e dependente, isto é, entre as variáveis latentes e variáveis observáveis, por exemplo: no desenho desse modelo – elaboração da ligação entre as figuras caracterizando as variáveis estudadas - um retângulo é considerado como variável observada medida pelo pesquisador; uma elipse é considerada variável latente, isto é, construto hipotético não observado; uma seta com uma ponta indica o caminho ou a relação causal entre duas variáveis; uma seta com duas pontas representa a covariância, isto é, que estas variáveis se associam entre si; por fim, uma bolinha preenchida com um número e letra referem-se a um erro de medida. A partir do momento em que se elabora a hipótese, identifica cada uma dessas figuras associando as variáveis que se quer provar a múltipla influência.

Para que os resultados sejam obtidos faz-se necessário considerar índices de ajuste (escores co-variantes) – os quais destacados na metodologia do presente estudo, na sessão do procedimento – permitindo enfatizar a teoria a que se propõem e sua explicação, simultaneamente, entre as variáveis independentes e dependentes, além de garantir uma melhor avaliação associativa entre as variáveis a que se pretende corroborar no modelo. A grande importância no uso dos estudos de modelagem de equação estrutural refere-se tanto em relação à segurança dos resultados multivariados, quanto, partindo de um estudo anterior ou de uma perspectiva teórica - ou até, de ambas – a avaliado da associação simultânea entre as variáveis testadas (Hoe, 2008; Pitali & Laros, 2007). No presente estudo, partindo da perspectiva teórica apresentada, espera-se encontrar os seguintes resultados: a afiliação com os pares sócio-normativos associe-se, positivamente, as condutas desviantes – antisocial e delitiva.

Metodo

Amostra

Três amostras com jovens em idades de 15ae 20 anos, do sexo masculino e feminino, das cidades de João Pessoa - PB e Palmas – TO compuseram o estudo. Todas elas foram distribuídas igualmente nos níveis fundamental e médio da rede privada e pública de educação de cada cidade. Na primeira amostra 1 (N1) 489 sujeitos da cidade de João Pessoa – PB, entre 15 e 20 anos, predominando ligeiramente a participação das mulheres (52%) e com renda econômica superior a R$ 660,00; a segunda amostra 2 (N2) foi composta de 530 sujeitos da cidade de Palmas – TO, entre 16 a 21 anos, com uma distribuição eqüitativa em relação ao gênero e uma rende econômica de, aproximadamente, R$ 545,00; por fim, na terceira amostra 3 (N3) com 400 sujeitos, também com idades entre 15 a 20 anos e de ambos os sexos, dos quais 57% eram mulheres, e com uma renda econômica de R$ 722,00.

Tal amostra foi não probabilística, e sim intencional; pois além do propósito de garantir a validade interna dos instrumentos da pesquisa, era assegurada a possibilidade de realizar as análises estatísticas que permitissem estabelecer os critérios preditivos entre as variáveis estudadas.

Instrumentos

Os participantes responderam os seguintes questionários:

Questionário da identidade com pares sócio-normativos. Desenvolvido por Formiga (2005), nesse instrumento o sujeito era orientado a responder as questões referidas a sua identificação com os pares responsáveis pela socialização do comportamento socialmente aceito, considerando-os como pares sócio-normativos; isto é, eles deveriam assinalar, marcando com um círculo ou X numa escala de cinco pontos, tipo Likert, que variava de 0 = Não me Identifico totalmente a 5 = Identifico-me totalmente, o quanto o jovem se assemelhava a cada um dos pares sócio-normativos referidos no questionário (por exemplo, o quanto eles se identificavam com o pai, a mãe e o professor). Para isso, deveriam ter como foco a contribuição que cada um deles, de forma contínua, tem para sua formação social e afetiva em sua vida cotidiana.

Considerando uma análise fatorial confirmatória (AFC) e a análise do modelo de equação estrutural (SEM), o presente instrumento apresentou indicadores de ajustes recomendados na literatura vigente (Byrne, 1989; Hair, Tatham, Anderson & Black, 2005; van de Vijver & Leung, 1997): χ2/gl = 0,12; GFI = 0,99 e AGFI = 0,98; TLI = 0,98; CFI = 0,99; RMSEA (90%IC) = 0,02 (0,01-0,03), CAIC = 63,31 e ECVI = 0,04. O instrumento proposto apresentou garantia da confiabilidade fatorial e evidências empíricas para sua aplicação e mensuração no contexto paraibano.

Escala de Condutas Anti-sociais e Delitivas. Este instrumento, proposto por Seisdedos (1988) e validado por Formiga e Gouveia (2003) para o contexto brasileiro, compreende em uma medida comportamental em relação às Condutas Anti-Sociais e Delitivas. Tal medida é composta por quarenta elementos, distribuídos em dois fatores, como segue: condutas anti-sociais. Seus elementos não expressam delitos, mas comportamentos que desafiam a ordem social e infligem normas sociais (por exemplo, jogar lixo no chão mesmo quando há perto um cesto de lixo; tocar a campainha na casa de alguém e sair correndo); e condutas delitivas. Estas incorporam comportamentos delitivos que estão fora da lei, caracterizando uma infração ou uma conduta faltosa e prejudicial a alguém ou mesmo a sociedade como um todo (por exemplo, roubar objetos dos carros; conseguir dinheiro ameaçando pessoas mais fracas). Para cada elemento, os participantes deveriam indicar o quanto apresentava o comportamento assinalado no seu dia a dia. Para isso, utilizavam uma escala de resposta com dez pontos, tendo os seguintes extremos: 0 = Nunca e 9 = Sempre.

A presente escala revelou indicadores psicométricos consistentes identificando os fatores destacados acima; para a conduta anti-social foi encontrado um Alpha de Cronbach de 0,86 e a conduta delitiva ou delinqüente, 0,92. Considerando a Análise Fatorial Confirmatória, realizada com o Lisrel 8.0, comprovou-se essas dimensões previamente encontradas (²/gl = 1,35; AGFI = 0,89; PHI () = 0,79, p > 0,05) na análise dos principais componentes (Formiga, 2003; Formiga; Gouveia, 2003).

Caracterização Sócio-Demográfica

Os participantes responderam um conjunto de perguntas sobre característica pessoais (sexo, idade etc.) com a finalidade de caracterizar os respondentes da pesquisa.

Procedimento e análise dos dados

Para a aplicação do instrumento, o responsável pela coleta dos dados visitou a coordenação ou diretoria das instituições de ensino, falando diretamente com os diretores e/ou coordenadores para depois tentar a permissão junto aos professores responsáveis de cada disciplina, procurando obter sua autorização para ocupar uma aula e aplicar os questionários. Sendo autorizado, os estudantes foram contatados, expondo sumariamente os objetivos da pesquisa, solicitando sua participação voluntária. Para isso, foi-lhes dito que não havia resposta certa ou errada e que mesmo necessitando uma resposta individual, estes não deveriam se ver obrigados em responde-los podendo desistir a qual momento seja quanto tivesse o instrumento em suas mãos ou ao iniciar sua leitura, ou outro eventual condição. Em qualquer um desses eventos, não haveria problema de sua desistência.

A todos era assegurado o anonimato das suas respostas, enfatizando que elas seriam tratadas em seu conjunto estatisticamente; apesar do questionário ser auto-aplicável, contando com as instruções necessárias para que possam ser respondidos, os colaboradores estiveram presentes durante toda a aplicação para retirar eventuais dúvidas ou realizar esclarecimentos que se fizessem indispensáveis, não interferindo na lógica e compreensão das respostas dos respondentes. Um único aplicador, previamente treinado, esteve presente em sala de aula, apresentando os instrumentos, solucionando eventuais dúvidas e conferindo a qualidade geral das respostas emitidas pelos respondentes.

No que se refere à análise dos dados desta pesquisa, utilizou-se a versão 15.0 do pacote estatístico SPSS para Windows. Foram computadas estatísticas descritivas (tendência central e dispersão). Indicadores estatísticos para o Modelo de Equações Estruturais (SEM) foram considerados segundo uma bondade de ajuste subjetiva, dada pela divisão entre o qui-quadrado e o grau de liberdade (2/gl), que admite como adequados índices entre 2 e 3, aceitando-se até 5; Root Mean Square Residual – (RMR) - que indica o ajustamento do modelo teórico aos dados, na medida em que a diferença entre os dois se aproxima de zero. Para o modelo ser considerado bem ajustado, o valor deve ser menor que 0,05; índices de qualidade de ajuste, dados pelos Goodness-of-Fit Index (GFI) e o Adjusted Goodness-of-Fit Index (AGFI), que medem a variabilidade explicada pelo modelo, e com índices aceitáveis a partir de 0,80; Tucker-Lewis Index (TLI) e a Root-Mean-Square Error of Approximation (RMSEA), refere-se a erro médio aproximado da raiz quadrática, deve apresentar intervalo de confiança como ideal situado entre 0,05 e 0,08. (Byrne, 2001; Hair, Tatham; Anderson & Black, 2005; Joreskög & Sörbom, 1989; Hoe, 2008).

Resultados e Discussão

Buscando atender o objetivo principal desse estudo - testar o modelo teórico (causal) para explicar as condutas desviantes a partir da afiliação com os pares sócio-normativos em diferentes amostras - considerou-se um modelo recursivo de equações estruturais. Para tornar mais clara a leitura dos resultados optou-se por apresentar, em relação à conduta desviante – isto é, anti-social e delitiva - os pesos (saturações) que explicam o modelo proposto nas três amostras, expostos na figura 1.



Na figura acima é possível observar que, após as devidas modificações encontrou-se um modelo adequado, para as três amostras, com a seguinte razão dos indicadores psicométricos: Amostra 1 (N1) - 2/gl = 1,08, p < 0,30, RMR = 0,02 GFI = 0,99, AGFI = 0,99, NFI = 0,96, TLI = 0,99 e RMSEA = 0,01. Foi observado que os pesos da variável considerada pares sócio-normativos (afiliação com pai, mãe e professor) associou-se (λ = -0,19), negativamente, a conduta antisocial, a qual intermedia (λ = 0,60) a conduta delitiva; Amostra 2 (N2) - 2/gl = 1,47, p < 0,21, RMR = 0,02, GFI = 0,99, AGFI = 0,98, NFI = 0,98, TLI = 0,99 e RMSEA = 0,03, observando também, que os pesos da variável pares sócio-normativos apresentou uma associação negativa (λ = -0,21), a conduta antisocial intermediando (λ = 0,57) a conduta delitiva; por fim, a Amostra 3 (N3) apresentou um resultado na mesma direção com uma razão de 2/gl = 0,10, p < 0,93, RMR = 0,01, GFI = 1,00, AGFI = 0,99, NFI = 0,99, TLI = 0,99 e RMSEA = 0,01, tendo os pares sócio-normativos associado (λ = -0,19), negativamente, a conduta antisocial, que intermedia (λ = 0,62) a conduta delitiva.

De forma geral, este estudo não somente corrobora o estudo correlacional desenvolvido por Formiga (2005; 2009), mas também, apresenta uma maior segurança e robustez em relação à hipótese testada; reflete-se na importância da dinâmica interna da família e da escola frente à conduta juvenil, especificamente, quando se tem nessa dinâmica um fator de proteção para as condutas desviantes. Em todas as amostras, as condutas correspondentes ao comportamento delinqüente, os pares sócio-normativos apresentaram escores negativos associados a tais condutas. Isto é, na presença desses pares, provavelmente, menor será a manifestação de uma dessas condutas desviantes.

A dinâmica organizativa dos pais (pai e mãe; ou apenas um deles) como representação da instituição família tem o poder de inibir esse tipo de conduta, da mesma forma, a escola – na figura dos professores – também tem esse papel crucial na manutenção de um fator de proteção frente à conduta desviante; essa condição, de acordo com o que se propôs visando a prova do modelo teórico é de grande importância, com a participação de ambos (família e escola), no processo interventivo dessas condutas, com o objetivo de promover um continuum formador da conduta social desejável.

Isto vai além da construção de uma modularidade comportamental, apresenta uma direção psicossocial frente à responsabilidade e o vínculo afetivo entre esses pares; seja a partir do controle ou de um diálogo por parte da família, suposto constituinte de agentes da socialização nesta instituição, é possível que se estabeleça orientações quanto às regras sociais e o prejuízo afetivo ou interpessoal no rompimento da norma social transmitida por esta instituição (Bates, Bader & Mencken, 2003). Não somente a capacidade parental de diálogo e a menor distancia afetiva, mas também, o investimento no processo de monitoramento das condutas juvenis por parte das famílias seria importante na inibição de condutas que permeiam o risco social e fomentação do desvio.

Ao considerar o apoio da família e da escola frente à conduta juvenil delinqüente, os resultados apresentados neste estudo não somente pretendeu avaliar variáveis que contemplassem o cotidiano familiar e escolar – por exemplo, o vínculo de identidade com as instituições de orientação ou controle da conduta social - na busca de indicadores da manutenção de uma conduta adequada nas relações interpessoais. Teoricamente, comprovar um modelo teórico nessa direção, no qual avalia e mensure a participação efetiva e constante dos pais e professores na dinâmica social juvenil reflete-se em termos da validade e consistência da formação educativa, desenvolvimentista e personalística nas relações interna e externa dessas instituições.

Ao observa a figura 1, destaca-se o grau de vínculo dos jovens que pais e professores, capaz de inibir a conduta desviante. Com que estes resultados podem contribuir? O fato é que, prova-se, com o modelo, que esta condição não acontece de forma isolada, mas, é preciso considerar o conjunto cooperativo entre esses pares na intenção de manter e cumprir as normas administrada e estabelecida, mesmo que imperativamente, por pais e professores, consonantes ao compromisso convencional.

Neste sentido, o que na figura 1 pode ser refletido é a interdependência entre esses pares, frente à intervenção de condutas que nem sempre não são observadas, seja pelos pais ou professores, durante períodos em que um ou outro está distante do espaço vivido por esses jovens. Concretamente, na escola o professor poderá observar condutas tangenciadoras das normas sociais e junto à família, sobre a orientação e reflexão com a família, promover atitudes preconizadas por essas instituições quanto à formação moral e social.

Conclusao

Esse modelo pretendeu, em relação à explicação da conduta antisocial e delitiva, apresentar evidência empírica de que a afiliação com os pares sócio-normativos – pais e professor – é importante para a manutenção das normas e regras sociais, delimitando tanto espaços psicológicos quanto sociais, para que o compromisso e adesão a esses pares, esteja para  além de do respeito a um agente funcional da conduta social, mas, influencie a adesão a transmissão de valores e formação de traços de personalidade de sociabilidade e conscienciosidade.

Tais construtos – valores, personalidade, etc. - ocorrem na socialização entre esses pares, os quais, promotores de uma adolescência auto-consciente, humana e com tendência as condutas de apoio social a outros jovens, bem como, para uma formação de traços de personalidade que influencie, negativamente, uma conduta de risco (Formiga, 2005; Loehlin, 1997; Omar; Formiga; Delgado & Sampaio, 2004).

As condutas desviantes seria um reflexo da debilidade dos limites convencionais, principalmente, quando se trata do afastamento do vínculo afetivo, condição essa que pode ser entendido como a falta de comprometimento com os pares tradicionais e suas forças socializadoras para um comportamento socialmente aceito e a adesão débil aos papéis sociais convencionais direcionados por esses pares (professores, família, e especialmente, os pais) objetivando tanto uma melhor formação quanto fator de proteção social e psicológica (Formiga, 2005; Muñoz-Rivas & Graña, 2001; Grossi e cols., 2004).

Segundo Avellar (2007), o papel dos compromissos sociais do direito e costumes, interiorização das normas e valores somente será possível a partir do processo de socialização desenvolvido pelas diversas instituições sociais, tendo a família a instituição mais responsável por esse papel. Essa convencionalidade ocorreria apenas se estivessem envolvidos escola e família numa união que buscassem a promoção de melhores oportunidades de engajamento desses jovens em atividades socializadoras de esclarecimento e formação do valor das outras pessoas e seus impactos psicossociais. Fomentar entre pais, filhos e professores uma ligação afetiva e identitária, é investir no desenvolvimento de habilidades sociais a tríade professores-jovens-pais a fim de instituir um fator de proteção e de identificação contra o desvio comportamental de algum jovem quando manifestado seja em sala de aula, sejam, em sua própria casa, junto a família (Formiga, 2005).

Mas, vale destacar que nesse espaço discurssivo-empírico do estudo, nao se trata de controle excessivo e perda da expansão de conduta dos jovens, mas da promoção de poder acompanhá-los individual e interpessoal na sua dinâmica psicossocial. Aplicar de forma prática os resultados aqui achados é posivel que tenha um efeito positivo na orientação escolar, bem como, nas práticas parentais da família autoritativa e indulgente do que de permissividade e negligência (Formiga, 2005; Mulvey & Cauffman, 2001).

Embora neste estudo possa estabelecer sua corroboração em relação a outros estudos correlacionais desenvolvidos por Formiga (2005; 2009), porém aqui pode ser apresentada maior robustez e qualidade empírica, alguns limites devem ser destacados:
- Seria interessante a realização de um estudo com as mesmas variáveis comparando as resposta entre famílias estruturadas (aquelas famílias tradicionais) e reestruturadas (famílias com historia de separação ou divórcio entre os pais);
- Outro estudo poderia ser direcionado em termos da comparação das respostas dos jovens de instituições coercitivas com os da população geral em relação à valoração interna da família; por fim, seria útil um estudo intercultural e transcultural atendendo semelhante objetivo do presente estudo.

Contudo, é bom destacar que quando for considerar os resultados deste estudo é necessário ter em conta os aspectos mais específicos ou universais de cada cultura na avaliação dessas escalas quando se pretender adaptá-las para outros contextos. Por um lado é importante considerar as dimensões locais, específicas ou exclusivas (emics) da orientação de cada cultura, bem como, e não menos importante, avaliar as dimensões universais (etics) da Cultura, com o objetivo de compara os construtos estudados aqui para outro espaço geo-político e social (Muenjohn & Armstrong, 2007; Triandis e cols, 1993; Triandis, 1994; Van de Vijver & Leung, 1997).

Referencias

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Notas

1. Durante o desenvolvimento deste estudo o autor contou com a bolsa de produtividade do CNPq, instituição a qual agradece.


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